Beber ao poço de Dom Oscar Romero, Dom Luciano e Dom Helder Câmara

23.09.2014

Por Pe. Saverio Paolillo (Pe. Xavier)

Missionário Comboniano
Pastoral do Menor e Pastoral Carcerária Centro de Defesa dos Direitos Humanos Dom Oscar Romero – CEDHOR

No último dia 27 de agosto celebramos o XV aniversário do falecimento de Dom Helder Câmara (1999), um dos maiores profetas latino-americanos dos últimos tempos. De origem cearense, tornou-se mundialmente conhecido pela sua paixão por uma igreja pobre e dos pobres, pelo cuidado e ternura no trato com as pessoas e pela sua incansável e intransigente luta na defesa e promoção dos direitos humanos. Etiquetado como subversivo, dom Helder costumava responder assim: “Quando dou de comer a um pobre, me chamam Santo, mas, quando pergunto por que os pobres não têm comida, então me chamam comunista”.

Dom Helder, com seu jeito simples e despojado de viver seu ministério sacerdotal e episcopal, nos ensinou que “a opção preferencial pelos pobres e com os pobres” não é uma reivindicação de movimentos sociais nem tampouco uma linha programática de partido político, mas é uma bandeira do Evangelho. Os pobres estão ao centro do anúncio de Jesus Cristo. A opção por eles tem raízes teológicas. Pertence ao próprio jeito de ser de Deus que, desde sempre, revelou uma predileção especial por todos aqueles e aquelas que são condenados à marginalização e cujos direitos são negados e pisoteados. Abandonar os pobres, perseguir todos aqueles e aquelas que, através das pastorais sociais e de outras militâncias, se colocam generosamente a seu lado em busca de cidadania e desmobilizar em nossas comunidades os serviços de caridade em nome de um espiritualismo desencarnado e cada vez mais ego centrado são atos de traição do próprio Evangelho. Dom Helder não defendia uma ideologia, não incitava à luta de classes nem estimulava conflitos violentos. “A revolução social da qual o mundo necessita – costumava dizer – não é um golpe de Estado, não é uma guerra. É uma transformação profunda e radical que supõe Graça divina”.

A direita: Dom Oscar Romero, a esquerda: Dom Luciano

No mesmo dia 27 de agosto, por uma feliz coincidência, lembramos também o Dom Luciano dedicou toda sua vida ao serviço dos pequenos, sobretudo das crianças e adolescentes. É a ele que se deve o surgimento da Pastoral do Menor que, desde 1977 tem um papel decisivo na luta pela defesa e promoção dos direitos da população infanto-juvenil. Inclusive, dom Luciano fez parte do grupo que ajudou a elaborar o art. 227 da Constituição Federal de 1988 que resumiu magistralmente a Declaração Universal dos Direitos da Criança e do Adolescente, e teve uma participação decisiva na redação do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Federal 8.069/90) consagrando definitivamente a Doutrina da Proteção Integral como marco referencial no cuidado com crianças e adolescentes, reconhecidos como sujeitos de direitos e protagonistas na construção de uma vida mais digna para si e para o país.

Na mesma trajetória de dom Oscar Romero, mártir da justiça e da paz, dom Helder e dom Luciano fizeram a experiência de Cristo nos pobres. Esse encontro os marcou definitivamente e os tornou autênticos discípulos de Jesus e testemunhas da ternura, da paz e da justiça.

Desejo que a memória desses “santos padres da América Latina” motive nosso serviço na defesa e promoção da vida. Que nossa militância se inspire continuamente na prática de Jesus de Nazaré. Que não nos deixemos manipular por visões ideológicas e interesse partidários. Que não desistamos de nossos princípios em troca de favores, agrados e reconhecimentos. Que nenhuma coisa no mundo nos faça perder a indignação diante das violações aos direitos humanos. Que a firmeza de nossos posicionamentos não se curve a interesses particulares. Que a coragem de nossas atitudes não se acovarde diante do medo e das ameaças. Que a generosidade de nossa dedicação nunca ceda o passo à postura fria e burocrática do funcionário. Que a profecia de nossas palavras não se deixe calar com a oferta de cargos e salários. Que a nossa ambição nunca nos leve a trair a causa e os companheiros.

Que o apelo do fraco e do oprimido tenha mais importância do que os argumentos dos poderosos. Que as histórias das vítimas sejam preteridas às versões oficiais e às maquiagens dos marqueteiros. Que os riscos da marginalização e do isolamento nunca nos façam desistir. Que as calúnias proferidas pelos torturadores e seus defensores soem aos nossos ouvidos como elogios. Que as incompreensões por parte daqueles que compactuam com as coisas erradas nos confirmem em nossa caminhada.

Que em qualquer circunstância e apesar de tudo sejamos sempre defensores(as) dos direitos humanos. Com o mesmo espírito de dom Helder, possamos dizer: “É graça divina começar bem. Graça maior persistir na caminhada certa. Mas graça das graças é não desistir nunca”.

Fonte: Missionários Combonianos no Brasil