“A Igreja tem que ir pra periferia porque é lá realmente que está a missão dela”

15.09.2015

Numa época em que o papa Francisco põe em marcha a mais radical profilaxia já feita no Vaticano, reencontrar dom José Maria Pires – ou dom Zumbi – é sempre sinônimo de renovação da esperança, ou de que seu legado continua vivo.

Com 96 anos, ele ainda viaja pelo país para conferências sobre o Concilio Vaticano II – divisor de águas na história da Igreja Católica no mundo – e do qual foi ativo partícipe.

Entrevistado pelo jornal O Povo, rememorou ter sido em plena ditadura militar, como arcebispo da Paraíba, que instituiu o primeiro Centro de Defesa dos Direitos Humanos na América Latina.

E ainda defende, hoje, com ardor, o inquebrantável compromisso social que norteou sua ação pastoral ao dizer que o Concílio Vaticano II projetou uma nova imagem da igreja.

“Antes, o padre andava de batina, celebrava a missa e fazia batizado em latim. Devia ser um sujeito bem afastado, celebrava de costas para o povo.”

Defendeu o evangelho segundo o qual a Igreja tem que ser dos pobres. “O Cristo, ao fazer-se gente como nós, fez a opção pelos pobres. Ele podia ter nascido numa cidade grande, nasceu em Belém. Podia ter nascido num palácio, nasceu numa gruta. Nem casa tinha. Primeiro sono dele dormiu num cocho. O presépio é o cocho onde se colocava comida para os animais.”

Tudo isso está no Concílio Vaticano II. “Uma igreja que não está no centro, está na margem, na periferia. Ela tem que ir pra periferia porque é lá realmente que está a missão dela.”

Sua lucidez oxigena quem vive em seara de aridez episcopal; um bálsamo para os que não perderam a fé de que amanhã será outro dia.

Por Lúcio Vilar, jornalista, cineasta e professor (*)

(*) Texto transcrito da coluna semanal Caleidoscópio Midiático, do jornal Correio da Paraíba, edição de 09 de Setembro de 2015.