Projeto Reconexão Periferias mapeia movimentos e coletivos periféricos de todo país

28.02.2019

Com o objetivo de evidenciar a atuação de coletivos locais e fortalecer o estabelecimento de redes entre essas organizações, o Projeto Reconexão Periferias vem realizando desde o primeiro semestre de 2018 um mapeamento de movimentos e coletivos periféricos de todos os Estados do país. O resultado será lançado no Boletim Mapeamento dos Movimentos Sociais das Periferias, publicação mensal que também traz textos temáticos, espaço aberto para os coletivos, agenda nacional de eventos e oportunidades para captação de recursos.

Segundo os coordenadores do projeto, até o momento foram mapeadas 451 instituições das 600 que são o foco nas áreas de cultura, trabalho e combate à violência. O primeiro Boletim de Mapeamento, publicado este mês, levantou informações sobre as organizações da área de cultura, a qual concentra o maior número de organizações mapeadas – 234 com representações em todas as unidades federativas.

“Todos os meses apresentaremos uma análise de dados relativos a este mapeamento. Nesta primeira unidade do boletim, considerando que estamos em período de carnaval, trazemos informações das organizações da área de cultura. Embora suas atividades sejam identificadas ‘apresentações artísticas’, elas realizam processos formativos por meio de oficinas, encontros de formação e cursos livres. As intervenções culturais fazem parte de uma ação comprometida com o desenvolvimento do território em que atuam e, por isso, temáticas sociais diversas atravessam seus projetos”, destaca o Boletim.

De acordo com os dados, 31% das atividades realizadas são direcionadas a uma região da cidade e 26% a um bairro específico, quando apenas 9% têm abrangência estadual e 12% têm abrangência nacional. A maioria se auto-denominam “coletivos artísticos” (32%) e “coletivos” (32%), têm um caráter mais autônomo, grande parte das vezes sem a existência uma institucionalidade burocrática (CNPJ, por exemplo).

Apenas 16% definem-se como ONGs, 12% como associações, 5% como movimentos sociais, 2% como instituto, 2% como fórum e 1% ou menos como Fundação, Cooperativa e Sindicato. Os coletivos e movimentos de cultura nas periferias têm como principais temas de atuação “políticas culturais” (45%), “educação” (42%), “difusão artística” (39%), “direitos humanos” (36%), “luta antirracista” (30%) e feminismos (18%). Aparecem com 16% ou menos as áreas “povos e comunidades tradicionais”, “comunicação”, “desenvolvimento territorial”, “violência”, “saúde”, entre outros.

Ciclo de Debates Reconexão Periferias - Trabalho, informalidade e Desenvolvimento, São Paulo: 2018. Foto por David Silva.

Quando questionados se a organização enfrenta algum tipo de “cerceamento político”, a maioria das organizações apontam como principais problemas o racismo, machismo, fundamentalismo/intolerância religiosa, repressão policial, lgbtifobia, xenofobia e enfrentamento com grupos privados armados. Apenas 32% afirma não sofrer nenhum tipo de cerceamento em sua atuação cotidiana.

A interpretação de que esses coletivos e movimentos de cultura das periferias têm uma atuação mais localizada ganha força quando questionados sobre a existência de alguma filiação em rede ou fórum: 54% não participa, 27% participam em âmbito municipal, 17% em estadual, 15% nacional e 4% internacional.

Sobre a existência de alguma relação regular com organizações ligadas à política institucional, como os partidos políticos, 68,21% não têm ligação com nenhum partido, 25,13% com o PT, 11,28% com o PSOL, 5,64% com o PCdoB e 2% ou menos com PDT, PSB, PSTU, PCB, PSDB, MDB, PV etc.

Essas organizações ocupam espaços diversos, mas os locais públicos são os mais utilizados para a realização de suas atividades (57%). É um dado considerável o fato de que 38% das organizações têm espaço próprio e 15% realizam atividades em ocupações. As redes sociais se configuram como espaços de 11% dos grupos e 52% têm atividades em espaços emprestados ou cedidos.

Como estratégia de sobrevivência para o seu funcionamento, 72% contam com o autofinanciamento, 46% com financiamento coletivo, 26% com financiamento estatal, 18% com financiamento privado de empresa e 15% com financiamento privado de pessoa física. Lideradas por moradores das periferias, em sua maioria jovens, as práticas artísticas destes movimentos acontecem em torno de uma narrativa sobre a violação dos direitos fundamentais em seus territórios.

Embora as mulheres cumpram um papel fundamental para a articulação, manutenção e organização destes grupos, 61% dos responsáveis pela representação institucional ao responder os questionários foram homens.

Dentre os dados coletados neste mapeamento, destaca-se o fato dessas organizações apresentarem como bandeiras e problemáticas centrais agendas que estão sendo desqualificadas com o avanço do conservadorismo na sociedade brasileira: machismo, feminismo, racismo, genocídio, violência policial, homofobia, xenofobia etc. Suas narrativas são expressas em saraus, peças de teatro, slam, rap, graffiti, fóruns comunitários, manifestações, passeatas, oficinas, formações, grupos de prevenção etc. Desta forma, apresentam-se coletivamente como forma de sobrevivência, reexistindo, o que significa, em outras palavras, o movimento de reinventar-se, reformular-se, redizer-se e praticar novas estratégias frente aos modelos excludentes postos em nossa sociedade.

O Projeto Reconexão Periferias é uma ação do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, que em sua oficina de planejamento realizada em Julho de 2017 aprovou que o partido deveria estreitar relações com os movimentos sociais e ampliar e fortalecer a sua relação com a sociedade, através do debate das pautas das periferias.

Para essa ação foi designado como responsável a Fundação Perseu Abramo (FPA), que realizou desde então inúmeras oficinas e três reuniões do Grupo de Trabalho formado com pessoas que atuam em espaços variados para desenvolver essa ação. Esta rodada de conversas culminou com a realização do Primeiro Seminário Nacional, realizado no último dia 30 de janeiro, que reuniu no mesmo espaço representantes de manifestações culturais como Hip Hop, Funk, Slams, professores da USP, do Mackenzie, do Dieese, dirigentes partidários e de movimentos sociais.

Para mais informações sobre o projeto acesse o site: https://fpabramo.org.br/