Homenagens

Margarida Maria Alves

“É melhor morrer na luta que morrer de fome”

Margarida Maria Alves na porta de sua casa, em Alagoa Grande (PB)

Nascida e criada em Alagoa Grande, no Brejo Paraibano, foi a primeira mulher presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade.  Lá, fundou o Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural, uma iniciativa que, até hoje, contribui para o desenvolvimento rural e urbano sustentável, fortalecendo a agricultura familiar.

Lutando pela defesa dos direitos dos trabalhadores sem terra, suas principais metas eram o registro em carteira de trabalho, a jornada diária de trabalho de 8 horas, 13° salário, férias e demais direitos, para que as condições de trabalho no campo pudessem ser equiparadas ao modelo urbano.

Em seus 12 anos de gestão, o Sindicato moveu mais de 600 ações trabalhistas e fez diversas denúncias, como a endereçada diretamente ao Presidente do Brasil, em 1982, João Batista Figueiredo. Infelizmente, Margarida não viveu o suficiente para ver o resultado de seu pleito. Por causa do surgimento do Plano Nacional de Reforma Agrária, a violência no campo foi intensificada por parte dos latifundiários, que não queriam perder suas terras, mesmo as improdutivas.

A partir deste momento, o trabalho de Margarida na defesa dos direitos dos trabalhadores entrou em conflito com os interesses dos latinfundiários, tornando-a uma ameaça para eles.  Em seu discurso na comemoração do  1° de maio de 1983, na cidade de Sapé, na Paraíba, ela deixou isto bem claro: “Eles não querem que vocês venham à sede porque eles estão com medo, estão com medo da nossa organização, estão com medo da nossa união, porque eles sabem que podem cair oito ou dez pessoas, mas jamais cairão todos diante da luta por aquilo que é de direito devido ao trabalhador rural, que vive marginalizado debaixo dos pés deles”.

Margarida seria assassinada três meses e onze dias após essa declaração. O principal acusado é Agnaldo Veloso Borges, então proprietário da usina de açúcar local, a Usina Tanques, e seu genro, José Buarque de Gusmão Neto, mais conhecido como Zito Buarque. Seu sogro era o líder do Chamado Grupo da Várzea, composto  por 60 fazendeiros, três deputados e 50 prefeitos.  O crime ocorreu no dia 12 de agosto de 1983, quando um pistoleiro de aluguel, num Opala vermelho, disparou um tiro de escopeta calibre 12 em seu rosto, quando ela estava na frente de sua casa. Seu filho e seu marido viram tudo. Foram acusados pelo crime o soldado da PM Betâneo Carneiro dos Santos, os irmãos pistoleiros Amauri José do Rego e Amaro José do Rego e Biu Genésio, motorista do Opala. Mais tarde, ele foi assassinado, como “queima de arquivo”.

Margarida em sua fotografia mais conhecida

O crime teve repercussão internacional, com denúncia encaminhada à Corte Internacional de Direitos Humanos e várias outras entidades semelhantes. Severino, o marido de Margarida, dizia que “ela era uma mulher sem medo, que denunciava as injustiças”. Na época de sua morte, 72 ações trabalhistas estavam sendo movidas contra os fazendeiros locais.

Símbolo da luta pelos direitos dos trabalhadores rurais, Margarida recebeu, postumamente, o prêmio Pax Christi Internacional, em 1988; em 1994, foi criada, pela Arquidiocese da Paraíba, a Fundação de Defesa dos Direitos Humanos Margarida Maria Alves e, em 2002, recebeu a Medalha Chico Mendes de Resistência, oferecida pelo GTNM/RJ.

O dia de seu assassinato, 12 de agosto, é conhecido como o Dia Nacional de Luta contra a Violência no Campo e pela Reforma Agrária.

Campanha Margarida na Memória – veja documentos do acervo da Fundação sobre o caso.

Dom José

Defensor da liberdade e das causas das minorias

Dom José Maria Pires

O filho de Eleutério Augusto Pires e Pedrelina Maria de Jesus só deixou suas Minas Gerais aos 47 anos para atender um chamado do Papa Paulo VI, que o nomeou Arcebispo da Paraíba em 1966. Antes disso, a vida missionária de Dom José Maria Pires se concentrou, em muitas idas e vindas, entre Córregos, onde nasceu, Diamantina, onde se ordenou padre, Açucena, Curvelom, Governador Valadares e Araçuaí, todas cidades mineiras.

A ordenação aconteceu ainda jovem, com apenas 22 anos, depois de estudar a vida toda e concluir o curso de Filosofia e Teologia em Diamantina, o que o levou a assumir as responsabilidades de pároco em Açucena em 1943.

Cordel sobre Dom José escrito por Antônio Heliton de Santana. Clique na imagem para visualizar

Boa parte da vida dedicou às salas de aula, exercendo o magistério por onde passava e até assumindo a direção de uma escola em Governador Valadares.

A caminhada por terras paraibanas também foi longa, já que ele só se afastou no final de 1995, depois de 29 anos à frente da Igreja Católica de João Pessoa e cidades vizinhas. Sua passagem foi marcada pelas ações pastorais, o que se notabilizou ainda mais no período em que o Brasil ficou sob o domínio da ditadura militar, atuando contra o autoritarismo político vigente no país.

A mãe tinha sangue africano e cigano. O pai veio de família portuguesa. Na trajetória em defesa dos negros e oprimidos, dom José Maria Pires também ficou conhecido como dom Pelé e dom Zumbi. Aos 96 anos, o arcebispo emérito da Paraíba viaja pelo País para falar do Concílio Vaticano II, encerrado em 1965. É dos poucos padres conciliares vivos no Brasil.

Nascido em Minas Gerais, uniu a calma do mineiro à franqueza do nordestino para defender os mais pobres durante a ditadura militar. Teve no cearense dom Helder Câmara um amigo pessoal e aliado na luta pelos direitos humanos. Em entrevista ao jornal O POVO, relembra o pacto firmado pela Igreja em alcançar os mais fracos e perseguir a simplicidade. Depois de 50 anos da última conferência, vê que é preciso uma conversão à mensagem do concílio.

O POVO – De onde vêm os apelidos de dom Pelé e dom Zumbi?

Dom José Maria Pires – Quando fui ordenado bispo, em 1957, eu era o único bispo negro no episcopado brasileiro. Foi a época em que Pelé estava no auge, jovenzinho. Numa das nossas reuniões, entrei um pouquinho atrasado com outro bispo. Quando entrei, eles disseram: “Feola (Vicente Feola, ex-jogador da seleção brasileira), que era um gorducho, e Pelé”. Então começaram a me chamar de Pelé.

OP – E o Zumbi veio como?

Dom José - Zumbi foi na Serra da Barriga (Alagoas), no centenário da abolição da escravatura. Nós fizemos uma romaria até a serra, que era a sede do Quilombo dos Palmares. Aí dom Pedro Casaldáliga (bispo emérito de São Félix do Araguaia) diz: “Olha, Zé Maria. Pelé não faz nada pelos negros. Você vive lutando pela negritude. Então vamos mudar seu nome de Pelé para Zumbi porque ele também deu a vida pela negritude”. A partir daí me chamaram de dom Zumbi.

OP – E estes apelidos agradam?

Dom José - Não, para mim é indiferente. Uns me chamam de José, outros de Zé Maria. Eu respondo por tudo isso (risos).

OP – O senhor entrou para o seminário ainda novo?

Dom José – Eu fiz 12 anos já no seminário. Naquele tempo, a gente terminava a escola primária e entrava logo no seminário. Toda a parte do ginasial a gente já fazia lá.

OP – Neste início dos estudos, como um menino negro e de origem humilde, o senhor enfrentou dificuldades ou discriminação?

Dom José - A gente nem achava que era discriminação. Minas Gerais tem uma população de negros muito alta. Por ter sido terra de mineração, sobretudo de diamante, então foram multidões de escravos para lá trabalhar na terra. E o negro lá é coisa normal. Agora, realmente os brancos fazem a sua acepção e sua distinção. Por exemplo, no meu primeiro ano de seminário, com 12 anos, tive um desentendimento com um colega meu. Nós brigamos, veio o responsável, nos separou e nos colocou de castigo.

Ficamos de joelhos no corredor. Aí passou o diretor da casa, nos viu ali e chamou o responsável. “O que esses meninos fizeram?”. Disse: “Eles brigaram”. Aí o diretor: “Esse aqui é um menino muito bom, de boa família. Esse negro que não presta” (risos). A visão era essa e nós aceitávamos. A gente achava que negro era inferior. Só depois é que a gente veio ver que não era bem assim. Negro é diferente. Ele não é nem superior nem inferior, é diferente.

OP – Em 1965, você foi transferido para João Pessoa. Entrar em contato com as pessoas na Paraíba trouxe mais a visão de uma Igreja voltada para os pobres? Ou isso já fazia parte do seu trabalho em Minas Gerais?

Dom José - Fazia em parte. Porque naquele período havia uma distinção social muito forte entre Minas Gerais, que estava no Sul, e o Nordeste. Mineiro é muito calmo, retraído. É uma diferença marcante. Já o nordestino, é tudo amplo… Você chega e conversa com ele meia hora, você já sabe a vida toda dele. E houve um problema na Igreja no Nordeste porque, ainda durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), houve uma divisão muito grande em algumas dioceses. Uma delas foi a da Paraíba. O clero estava dividido, quase na metade. O arcebispo tinha 62 anos, mas estava sem condições de trabalhar. Então era necessário providenciar alguém que fosse novo e tivesse condições de enfrentar aquela situação.

OP – Que divisão era essa? Eram duas visões distintas de igreja?

Dom José - O Concílio Vaticano II projetou uma nova imagem de igreja e uma nova imagem do padre. Antes, o padre andava de batina, celebrava a missa e fazia batizado em latim. Devia ser um sujeito bem afastado, celebrava de costas para o povo. O Concílio projeta uma imagem diferente. É aquele que é social, conversa com todo mundo, se aproxima. Então um grupo de padres mais velhos fica nesse rito antigo, os padres mais novos não. Então dá uma confusão tremenda. No Nordeste, tinha isso. O que a Santa Sé faz? Pega um que nem conhecia o Nordeste.

Então me tiram de Araçuaí (Minas Gerais) e me manda para lá. Então pelo fato de ser mineiro e de não conhecer nada lá, eu entro assim sem preocupação nenhuma. Eu não tomava providência nenhuma e deixava que os padres fizessem isso. Realmente foi interessante para eles, mas dava para unir. Porque o bispo não era nem de um lado nem de outro. A gente conseguiu trabalhar. Não era mérito mesmo, é a mineirice. Ser um pouco diferente deles mudou a situação. E eu fui virando paraibano.

OP – É na Paraíba que o senhor passa a conhecer dom Helder Câmara?

Dom José - Eu já conhecia desde que fui eleito bispo. Mas era um conhecimento assim muito genérico, naquela multidão de bispos. Quando eu vim pra Paraíba, aí foi diferente. Eu era o vizinho mais próximo dele.

OP – O processo de beatificação de dom Helder já iniciou, já existe a comissão colhendo depoimentos sobre ele…

Dom José – (interrompendo) Eu fui o primeiro a dar o depoimento.

OP – Este depoimento é sigiloso, mas o que o senhor pode falar de dom Helder às pessoas?

Dom José - Posso falar tudo (risos). Era um grande padre, grande bispo. Uma capacidade de entender as pessoas, de conviver. Era autoridade, mas nunca exerceu autoridade. Ele nunca presidiu uma sessão do Regional 2 (divisão da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil). Ele que era presidente. Quem presidia era o auxiliar dele, dom José Lamartine. Ele ficava lá atrás como um dos outros bispos. De vez em quando, se levantava e dizia: “Mas, meus irmãos…”. E aí vinha com a visão dele, que era magistral.

Tinha um bom relacionamento com o povo. Onde já se viu um arcebispo de uma cidade como Recife não ter carro? Não ter secretário, comida em casa? Realmente era um testemunho maravilhoso. Pelo fato de eu ser o vizinho mais próximo dele, tínhamos muito contato pra poder ver como as coisas podiam caminhar. Tive uma amizade profunda com dom Helder.

OP – Pela atuação em defesa do povo durante a ditadura militar, as pessoas ainda se referem a vocês como arcebispos vermelhos. A que se deve este título e a ideia de que vocês estavam numa ala progressista na Igreja?

Dom José - Tudo dependia muito da região do Brasil. Lá no Sul, eles não tinham os problemas que tínhamos no Nordeste. Os bispos do Sul eram muito mais acomodados. E não acreditavam em muita coisa que a gente dizia. Recife, por exemplo, era um caldeirão. Era aquela ebulição constante. Essa foi a primeira razão. A segunda é que o fato de a gente viver no Nordeste, vendo a situação do povo, mexia muito com a gente. Por quê? Pobre tinha lá no Sul também. Só que no Nordeste não era pobre, era o empobrecido. Tinha que dar condições pra pessoa se desenvolver.

Lá no Sul não: o sujeito quer trabalhar, tem uma terra pra ele trabalhar. No Nordeste, se quer trabalhar, não tem terra nem nada, é uma espécie de escravidão. Isso muda completamente a visão da gente. Você está acostumado a uma região onde se tem uma boa convivência. Você vem pra uma que é guerra, não é? Isso obriga muito a gente a tomar posição. Com dom Helder foi a mesma coisa. Ele foi bispo do Rio de Janeiro. Durante o Congresso Eucarístico Internacional (1955), ele estava no Rio animando. Aí depois, é transferido pro Nordeste. Muda a linguagem dele, muda a atuação. Por quê? Somos arcebispos do povo. Então se o povo está em sofrimento, tem que mudar a cabeça da gente.

Dom José Maria Pires, 96 anos, arcebispo emérito da Paraíba (Foto: Camila de Almeida/O POVO/FORTALEZA, CE, BRASIL, 11-06-2015)

OP – E qual era a forma de a Igreja chegar perto dos menos favorecidos e atuar na defesa delas?

Dom José – Foi o que ela faz a partir do Concílio Vaticano II. Houve fatos muito sérios naquele período, de 1964 e 1965. O primeiro para nós foi a ditadura militar. E para a Igreja, o encerramento do Concílio Vaticano II. Então a gente sai do Concílio com aquele entusiasmo, querendo que a Igreja seja dos pobres. Aí um grupo de 42 bispos vai celebrar nas catacumbas de Roma e assina um compromisso de ter a Igreja dos pobres. Isso era dizer: “Nós, bispos, não vamos morar mais em palácio, não vamos ter nenhum objeto de ouro. Quem tiver cruz de ouro vai vender, vai doar”. Simplicidade, não é? Dar uma atenção especial às famílias mais simples. Ao invés de ficar com as mais importantes. Muda não só a cabeça, muda também o estilo de vida. Isso, para os que estão no poder, é comunismo (risos). Mas a gente não se incomodava com isso. Chamavam dom Helder de bispo vermelho, escreviam no muro da casa dele. Isso não incomodava.

OP – E fazia com que vocês parassem de agir pelo povo?

Dom José - Não. Dom Helder fazia coisas inacreditáveis para um arcebispo de Olinda e de Recife. Nós estávamos lá em assembleia do Regional Nordeste 2, do qual ele era presidente. Chegam as pessoas do Interior e avisam que os proprietários daquela área tinha mandado abrir a cerca perto de onde moravam os mais simples, onde havia as plantações deles, para soltar o gado ali. Dom Helder procurou se informar se aquilo era verdade. E era. Aí disse: “E nós vamos continuar aqui na nossa reunião? Deixando o povo sofrer desse jeito? Temos que fazer alguma coisa”. Dom Helder nunca decidia o que fazer, ele jogava o problema, e a gente discutia. Daí é que saía a solução. Saía do encontro das opiniões. O resultado foi: “Tem que alguém ir lá e dar apoio ao povo”. Então fomos quatro bispos. Eu dirigindo um Fusca, dom Helder ao meu lado. Quando chegamos lá, estava montada aquela coisa, tinha mais de cem soldados. Logo veio um dos comandantes cumprimentar dom Helder. Quando viram os bispos entrando, as pessoas se animaram.

Estava todo mundo acuado nas suas casas, e o gado comendo tudo. O pessoal sai das casas, e dom Helder começa a recitar com eles os mandamentos da não-violência. Dom Helder gritava: ‘Primeiro”. O pessoal dizia: “Nunca matar”. “Segundo”. “Nunca ferir” e por aí vai. Terminaram os mandamentos, dom Helder disse: “Agora vamos tirar o gado”. Chega um militar e diz: “Isso o senhor não pode fazer”. Ele diz: “Então vai deixar o gado comendo a plantação do povo?”. O militar diz: “Mas isso é o proprietário que tem de fazer”. Mas foi o proprietário que mandou abrir a cerca e mandou a polícia para garantir aquilo. Dom Helder não discutiu mais. Pegou uma maniva, aquela barrinha da mandioca, e disse: “Nós vamos tocar o gado é devagarzinho. Porque o gado comeu muita mandioca e pode se sentir mal se correr. Vamos devagarzinho, não é?”. Pronto, fomos nós quatro tangendo o gado. Era uma coisa muito simbólica.

OP – E com a sua atuação na arquidiocese da Paraíba, o senhor sofreu alguma perseguição na ditadura militar?

Dom José - Perseguição não. Dom Helder e eu tivemos restrições. Por exemplo, dom Helder fazia muitas viagens ao exterior. E seguravam o passaporte dele. Naquela época, o passaporte era só para aquela viagem. O passaporte ficava com a Polícia Federal. Quando era quase na hora da viagem, chegava alguém lá com o passaporte dele. Era uma pressão que se fazia sobre ele. Faziam uma pressão também sobre nós violando nossa correspondência. Você via claramente. Havia esse tipo de perseguição, depois intimidação.

Eu marquei uma visita à Nação Potiguara, que são uns índios que têm todo um município lá na Paraíba. Chegou um funcionário da polícia e disse: “O senhor tem autorização para entrar lá na área indígena?”. Eu disse: “Não, não preciso de autorização”. Ele disse: “Ah, precisa”. Eu disse: “Mas eu não vou lá fazer visita qualquer, vou fazer visita pastoral. Sou o arcebispo, então vou visitar”. O policial disse: “Ah, mas se o senhor não tiver autorização do Exército, o senhor não entra lá”. Eu disse: “Tá bom”. Chegamos lá com uma freira e outro rapaz, estava a polícia. Pediram meus documentos. Entreguei, eles viram e abriram a cancela. O que eles faziam muito era intimidar a gente. Se você cedesse, era vitória deles. Mas se você insistisse, eles não tinham coragem de enfrentar. Foi um tempo muito interessante (risos).

OP – Nesse período foi fundado o Centro de Defesa dos Direitos Humanos, em 1971. Essa instituição era ligada à arquidiocese? Em que ela ajudava as pessoas?

Dom José - Nosso centro de defesa foi o primeiro que surgiu na América. O Concílio insistiu muito sobre a questão dos direitos humanos, nos direitos da pessoa, os valores da pessoa, inclusive na Igreja. E como a gente vai ajudar a pessoa, se sobretudo os pobres é que estão sendo mais atingidos? Então você recorria a um advogado para defender fulano de tal que foi preso. Mas não dava porque precisaria de gente que tomasse isso a sério. Então a diocese da Paraíba resolveu contratar um advogado pra ficar só por essa conta.

Aí começou o Centro de Direitos Humanos. Tínhamos agora advogado, um daqueles que não fica esperando a coisa aparecer. O problema é de terra naquele lugar, ele vai lá para conhecer, passa bastante tempo ali e tem os dados todos para poder tomar defesa. Foi uma bênção pra aquele pessoal pobre saber que tinha um advogado. E alguns casos não davam para o advogado resolver, tinha ser coisa do Exército. Ele dava uma carta ao fulano para ir ao Grupamento de Engenharia. Então o cidadão chegava e dizia: “Olha, essa é uma carta pro comandante”. O comandante lia a carta, era do advogado. Rasgava a carta e dizia: “Quando você tiver problema, não precisa ir lá naquele comunista não”.

OP – Até hoje o senhor é chamado nos encontros para falar sobre o Concílio Vaticano II. Além de mudanças na imagem de um padre e na proximidade com as pessoas, que mudança o senhor destaca na atuação da Igreja?

Dom José - Não é questão de mudar. Toda aquela doutrina de antes continua válida. Você agora vai colocar o foco nessas coisas que estão sendo importantes para o povo. Antes, a imagem da Igreja era como se fosse uma pirâmide. Lá em cima está o papa, depois vêm os bispos, os padres, os religiosos e lá na base está o povo. Vaticano II projetou uma outra imagem. Igreja é povo. Tá tudo aqui, não tem ninguém lá em cima. Aqui tá o papa, os bispos. Cada um com a sua função. É como numa sociedade: as pessoas têm autoridade exatamente para exercer aquela função. Na Igreja, tem alguns que são destacados para ser autoridade em benefício da caminhada. Igreja é povo de Deus a caminho. Não é estática, não é uma instituição que está aí parada.

Nessa caminhada, tem mudanças constantes. A Igreja está pronta para estas mudanças. Nessa caminhada, você precisa de alimento para a estrada. Grande alimento é oração e eucaristia. E a eucaristia não é prêmio para as pessoas piedosas, é alimento pra quem tá viajando. Então muda completamente. Não nega as coisas antigas, mas projeta pra hoje uma imagem diferente de Igreja.

OP – Esta teoria e esta imagem pensada durante o Concílio foi aplicada?

Dom José - Ela não foi pensada durante o Concílio. Essa é a imagem original da Igreja. As comunidades apostólicas começaram desse jeito. O que a gente está fazendo depois do Concílio é aquilo que São João XXIII chamou de refontização. Voltar às fontes. Como era a Igreja no começo? Como ela nasceu? Vamos voltar às fontes. Agora, a teoria fala das fontes. Mas acontece que, com o passar dos séculos, as coisas mudam. Hoje as mulheres não se vestem mais como se vestiam naquele período. Então temos que atualizar. A Igreja então tem que ser fiel àquele começo, mas atualizada. Você vai conservar o ardor, mas vai usar as possibilidades de atualização daquilo.

OP – E como ficou o diálogo da Igreja com outras denominações cristãs? O Concílio abordou o ecumenismo. Foi importante falar sobre isso?

Dom José - Olha, antes ecumenismo era uma coisa um tanto teórica. Com o Vaticano II, vem a coisa prática. A gente vai se encontrar porque tem alguma coisa em comum entre nós. Por exemplo, todo ano temos um encontro de bispos e pastores evangélicos. O que é comum entre nós? A Bíblia. Se é a Bíblia, de manhã a gente tem que ter uma celebração da palavra. E quem preside é um protestante. De tarde, tem uma celebração da eucaristia. Quem preside é um bispo. E todos assistem. E durante o dia nós vamos discutir assuntos que dizem respeito à sociedade. Por exemplo, a gente falava da violência. Interessa ao protestante e ao católico que as pessoas se entendam e se aproximem.

OP – Você tem da mãe a descendência africana. No diálogo com outras religiões, como você vê a espiritualidade de milhões de negros no Brasil que têm herança do catolicismo e da cultura africana, mesclando devoção aos santos e aos orixás?

Dom José – No começo, a Igreja condenou tudo isso. Porque ela entrou no Brasil e na América através dos que vieram da Europa. Eles eram católicos, todos. Eles achavam que religião era aquilo, tinha que ser desse modo. Quem não praticasse daquele jeito, naquele estilo, estava fora. As coisas de índio eram consideradas como superstição. As coisas de negro eram superstição. Então joga o fora o candomblé. Vai passando o tempo, e a gente então vai descobrindo que realmente Deus está presente nessas culturas todas. Você tinha que respeitar a cultura diferente. Não foi fácil. Em 1992, a gente ainda teve uma discussão forte sobre isso em Santo Domingo, na Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. A gente viu que o que a Igreja crê é na inculturação da fé, do evangelho. Eu não posso viver a minha fé do mesmo modo que vive um sujeito lá da Europa, que tem um estilo de vida completamente diferente. A fé é a mesma, a maneira de viver é diferente.

Para o europeu rezar, quanto mais calmo tiver, melhor. Para o negro, não. Quanto mais dançar, mais ele acha que está louvando a Deus com suas danças e batuques. Até 1992, não se aceitava esse processo de inculturação. Em Santo Domingo, foi aprovado que era necessário inculturar o evangelho na América. Isso exigiu uma adaptação e mostrou que as culturas não são ruins. O que é fundamental na cultura afro? Os orixás. Se tivessem entendido isso desde o começo, os negros teriam adorado. O orixá é como se fosse meu anjo da guarda. Todo mundo ao nascer tem o seu orixá. Na doutrina católica, todo mundo tem o seu anjo da guarda. Então é só porque mudou de nome? Todo mundo da Igreja Católica adora a Deus. Na cultura africana, eu adoro Olorum. Só mudei de nome, não é? O fato de o Vaticano II ter dado atenção a estas culturas fez com que muita coisa que antes era impossível se tornasse fácil. Esse diálogo entre diversas culturas religiosas também ficou.

OP - O Concílio também trouxe a mensagem de uma Igreja mais misericórdia e menos condenação. Vemos muito esta ideia no discurso do papa Francisco, de ir às periferias e alcançar as pessoas. Na sua opinião, do que a Igreja precisa para seguir este caminho e ter mais visão de misericórdia?

Dom José - Precisaria só de uma coisa. Que, nos seminários, se estudasse mais o Vaticano II. Tudo isso está no Concílio Vaticano II. Uma igreja que não está no centro, está na margem, na periferia. Ela tem que ir pra periferia porque é lá realmente que está a missão dela. Precisaria que a gente se convertesse ao Vaticano II e quisesse colocar em prática. Porque não é fácil.

OP – Então seria uma conversão?

Dom José - Seria. E essa conversão não é só no povo. Começa dos bispos. Seria voltar à tradição original, a gente foi perdendo com o tempo. O importante é voltar às comunidades evangélicas primitivas. O pessoal vivia mesmo como irmão. Não tinha “isso é meu”. Isso aqui é nosso. Realmente as comunidades viviam a fraternidade. Elas não estavam preocupadas em defender isso ou aquilo. Estavam preocupadas em viver o evangelho. Precisamos o quanto possível voltar àquele espírito de fraternidade.

OP – Por que a visão da Igreja para os mais pobres precisa começar na formação dos sacerdotes?

Dom José – Pelo evangelho, a Igreja tem que ser dos pobres. O Cristo, ao fazer-se gente como nós, fez a opção pelos pobres. Ele podia ter nascido numa cidade grande, nasceu em Belém. Podia ter nascido num palácio, nasceu numa gruta. Nem casa tinha. Primeiro sono dele, dormiu num cocho. O presépio é o cocho onde se colocava comida para os animais. Ele fez essa opção pelos pobres. Não excluiu os ricos, mas a opção preferencial foi para os pobres. Então se a Igreja quer ser fiel a ele, ela tem que ver onde é que está havendo mais pobreza. Não é só a pobreza material, às vezes é a pobreza intelectual, pessoas que não são aceitas, que fizeram um crime. Todo esse pessoal que está vivendo uma pobreza física, material, intelectual ou espiritual é o objetivo principal da Igreja.

OP – Como deveria então ser aplicada esta formação convertida ao Vaticano II?

Dom José - O modelo está no Evangelho. Cristo não foi um mestre como os outros. Os outros tinham sua sala, os seus discípulos vinham e sentavam-se, aí ele dava suas lições. Cristo é diferente. Ele saía com as pessoas e ia realizando a vida. E eles iam aprendendo: como é que eu trato as pessoas, como eu devo atender fulano, sicrano. A formação hoje deveria dar muito mais espaço para a realidade. Não ser só uma formação intelectual, ver só estudo de filosofia, teologia. Isso faz parte também. Mas é indispensável o contato com a realidade. A formação sacerdotal hoje deveria ser muito mais integrada à vida do povo. Depois do Vaticano II, houve tentativas neste sentido. Algumas vingaram, outras não. Por exemplo, o tempo da Teologia da Enxada. Jovens que entravam no meio rural, iam para uma propriedade que fosse da Igreja para trabalhar e estudar.

Os professores iam lá periodicamente, eles estudavam nas horas vagas. O professor voltava depois e queria ver como é que eles discutiram aquilo. Não vingou, mas aqueles que se ordenaram nesse tempo são padres excelentes. Inclusive, bispos também e alguns são arcebispos. Precisaríamos que isso fosse mais assumido pela Igreja de tal maneira que a gente pudesse ter ao lado dos doutores e professores com formação intelectual os pastores com uma convivência com o povo durante todo o tempo de formação.

OP – Como é vista a Teologia da Libertação no Vaticano? Há uma divisão dentro do catolicismo?

Dom José - A resposta não é fácil. Para nós, que vivemos numa região onde o povo é muito escravo ainda… Tem muita gente que passa fome num País como o nosso, que poderia alimentar o dobro da população que tem. Para estas pessoas, a teologia que serve é a da libertação. Elas têm que se libertar da fome. Em outros lugares, as pessoas têm que se libertar é do vício. Não adianta para eles uma teologia que seja teoria. Não, tem que ser a coisa prática. Isso vai exigir que os pastores conheçam melhor a realidade.

Estejam mais em contato com a situação do povo, podendo refletir em cima disso. Como é que o povo está sendo conduzido? É isso que Deus quer? Se não é exatamente isso, o que devemos fazer para que o povo entre no caminho da vontade de Deus? Teologia da libertação é algo que, em um País como o nosso, é indispensável. Antigamente, a teologia era a teoria. Você aprendia aquelas teses todas. Libertação é ver como está o povo, perguntar se é o que Deus quer e fazer alguma coisa.

Com informações de  www.opovo.com.br

Irmã Jô

A história de uma Peregrina

A história da filha única que chorava para ter uma irmãzinha e que aos sete  anos trocou Glasgow, na Escócia, pela cidade dos Beatles, Liverpool, na Inglaterra, é marcada por muita peregrinação pelo mundo. Mary Josephine McElroy nasceu em 8 de julho de 1947 e desde a primeira mudança de endereço, quando teve que conviver com o sotaque britânico, aprendeu que teria que se adaptar a línguas novas se quisesse seguir seu caminho na vida. Uma das paradas nesse caminho a levou à Universidade de Newscastle, onde se formou em Línguas e Educação.

Mas foi depois de 1966, quando as Religiosas do Sagrado Coração de Maria abriram as portas de sua congregação para a jovem de 21 anos, que as andanças se intensificaram. Depois do noviciado na cidade irlandesa de Waterford, ela foi fazer o curso de Teologia em Londres e também estudou em Barrow in Furness e Keighley, todas cidades inglesas.

Só em dezembro de 1979, já conhecida como Irmã Jô, ela aportou em terras brasileiras com o objetivo de fazer o Cenfi, em Brasília. Os estágios a levaram para Ubá, em Minas Gerais, João Pessoa e Pindobau, na Paraíba e Vitória do Espírito Santo, sempre caminhando com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Em terras paraibanas ela chegou em 1981, para trabalhar na comunidade São Sebastião, em Macaíba, paralelo às aulas que oferecia na Cultura Inglesa.

O Centro de Defesa dos Direitos Humanos, que depois passou a se chamar Fundação de Defesa dos Direitos Humanos Margarida Maria Alves, a recebeu em 1986, dois anos depois ela recebeu o título de cidadã pessoense e só deixou o Brasil em 1999, depois de 20 anos de trabalhos por aqui. Hoje, Irmã Jô é coordenadora de um centro de acolhimento que recebe grupos para retiros espirituais, cursos ou para repouso no País de Gales.