Mutilados do Massacre de Carajás denunciam descaso em atendimento médico

14.04.2006

Por: Marina Mendes, de Brasília, da Agência Notícias do Planalto,

Na próxima segunda-feira (17) o Massacre de Eldorado dos Carajás, no município de mesmo nome no sul do Pará, completa dez anos. Uma ação policial para desbloqueio da rodovia PA-150 deixou 19 trabalhadores rurais sem-terra mortos e cerca de 69 feridos. Eles participavam de uma manifestação organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para pedir agilidade na reforma agrária. Homens e mulheres ficaram com as seqüelas de tiros e pancadas dados pelos policiais militares. Muitos ainda estão com balas alojadas no corpo. Três anos depois da chacina, o Estado foi responsabilizado pelas vítimas e uma decisão judicial determinou o tratamento médico e psicológico dos feridos.

A Secretaria de Saúde do Pará encaminhou para a unidade de Tucuruí (PA) todos os mutilados. Segundo o diretor geral do hospital, José Maria, os sobreviventes de Carajás são contemplados com todos os atendimentos necessários. “Quando estes pacientes chegaram até aqui para nós, não nos preocupamos em atender seqüelas do nexo causal. Nós vimos o paciente como um todo, tanto é que todos passaram por mais de um profissional de saúde. Nós não nos preocupamos em tratar somente as seqüelas, dando inclusive apoio psicológico, apoio bio-psicosocial e dos demais especialistas”.

Mas segundo os próprios mutilados o tratamento se resume a exames e remédios para verme e não para as seqüelas das feridas. Com isso eles acabam desistindo de procurar ajuda médica. É o caso de José Carlos Agarito, de 26 anos, que levou um tiro no olho e ainda está com a bala alojada na cabeça e tem secreções no ouvido por causa disso. “Tratamento sabe como é né?! Eles mandam a gente sentar lá, pergunta o que a gente tem, entrega remédio e a gente toma. A mesma coisa que se tivesse comendo farinha. Só no remédio”.

Agarito diz ainda que o estado não tem estrutura para resolver os problemas médicos que os feridos enfrentam e que necessitam de tratamento especializado. Durante esta última década mais três pessoas morreram em função dos ferimentos, elevando o número de mortos no Massacre de Carajás para 22.