Do luto à luta – a história de uma mãe contra a impunidade nos crimes de pistolagem

07.02.2011

Por Andréia Martins

O filho de Rosa foi morto aos 17 anos por ter testemunhado crimes cometidos por Policiais Militares

“Você não tem medo de morrer?” Esta é uma pergunta para a qual D. Rosa tem uma resposta rápida e sincera: “Não. Se eu aparecer morta, já sabem quem foi”. E é por causa dessa coragem que Rosa Maria Holmes do Nascimento luta por justiça. Seu filho foi assassinado aos 17 anos, na frente de sua casa, em Mangabeira 8, no dia 07.02.2009. Rosa viu o assassino e não se calou: prestou queixa à Polícia Federal, à Secretaria de Segurança da Paraíba e ao Conselho Estadual de Direitos Humanos, onde encontrou no Deputado Luís Couto mais força para continuar a lutar.

Acompanhamos, diariamente, histórias tristes de mães que perdem seus filhos de maneira trágica. Na maioria dos casos, a dor e o luto prevalecem, fazendo com que nos calemos diante da violência de nossos dias. Mas, para Rosa Maria Holmes do Nascimento, mãe de Edvan do Nascimento Nobre, morto há 2 anos por um policial corrupto, lamentar e pedir por justiça não foi o suficiente. Ela decidiu denunciar o carrasco de seu filho para o Ministério Público, aliando-se ao Deputado Luís Couto e o então Secretário de Segurança da Paraíba, Gustavo Gominho, para que todo o esquema de extermínio, encabeçado pelo 1º Sargento Humberto Carlos Pereira de Nascimento, fosse averiguado. No aniversário de morte do filho, ela concedeu esta entrevista exclusiva à Fundação Margarida Maria Alves, na esperança que seu trabalho continue e que incentive outros pais a lutar por justiça.

O esquema corrupto do 1º Sargento era conhecido pela maioria dos moradores de Mangabeira 8, principalmente aqueles próximos do ponto final dos ônibus. Era nas barracas de lanches ali postadas que os policiais costumavam comemorar os crimes que cometiam, principalmente as mortes. Por estes motivos, Rosa não gostava que o filho freqüentasse o local. Mas o jovem, de 17 anos, parecia não perceber o risco que corria, pois já tinha presenciado dois dos crimes de Humberto Carlos Pereira do Nascimento. Assim, na noite de 7 de fevereiro de 2009, Edvan encontrou a morte em frente de casa.

Rosa viu tudo. Viu, inclusive, o assassino ir embora como se nada tivesse feito. Assim, ainda sofrendo pela perda do filho, Rosa começou a sofrer ameaças. “Mandaram um homem no enterro do meu filho para ficar dizendo, na minha cara, que tinha sido o 1° Sargento que o tinha matado. Ficaram esperando que eu confirmasse, para que eu fosse morta também. Depois disso, já fui perseguida até por carro de polícia”. A partir do momento em que Humberto foi indiciado, Rosa teve coragem de contar o que sabia. Assim, procurou a Polícia Federal e a Comissão Estadual de Direitos Humanos, onde encontrou o apoio do Deputado Luís Couto.

Rosa guarda com carinho as notícias sobre a morte de seu filho e a sua luta por justiça

“A idéia que eu tinha dos Direitos Humanos mudou completamente. Enxerguei que defendem a vida, não só bandido, como as pessoas dizem. Quem está de fora pensa que só funcionam pra bandido. Mas, onde passo, tento tirar esta imagem”. Contando com esta ajuda, Rosa também teve coragem suficiente para mostrar o rosto e pedir por justiça de peito aberto. Além disso, denunciou um esquema em que os policiais corruptos alegavam insanidade para escapar à punição adequada: após passar alguns meses no manicômio judiciário, eram aposentados por invalidez. Por causa da denúncia de Rosa, 23 policiais nestas condições foram transferidos de volta para os quartéis militares.

Mesmo com essas vitórias, Rosa acredita que está sozinha nesta luta no tocante às outras famílias vítimas de crimes semelhantes. “Ganharíamos mais se tivéssemos a força de outras famílias. O corporativismo faz com que eles (os Policiais Militares) se fortaleçam, aproveitando o medo das pessoas.” Mas, mesmo com a dificuldade do medo, Rosa está fazendo parte do Curso de Formação de Juristas Populares, promovido pela Fundação Margarida Maria Alves em parceira com a Fundação Interamericana (IAF). Através do Curso, ela espera encontrar pessoas que tenham coragem, e que possa ajudar mais outras.

O medo é o grande problema. Por isso que até organizar uma manifestação pública é complicada. Ela espera encontrar a força para persuadir outras famílias através do conteúdo do Curso de Formação de Juristas. “O curso vai me ajudar porque estou aprendendo, tenho mais conhecimento e posso enxergar melhor as coisas. A realidade é a coisa mais importante. O conteúdo é extremamente importante, muita gente é leiga, não acha que pode lutar sozinha, como eu luto”.

O julgamento do 1º Sargento Humberto Carlos Pereira de Nascimento está previsto para março. Ele é apontado como o mandante de cerca de 60 mortes. Rosa clama mais uma vez pela força do povo: “Peço a todos (as) que tenham a certeza que os seus familiares foram mortos por PMS, que deixem o medo de lado. A covardia faz com que eles se sintam impunes, espero que a população se manifeste. Me procurem que eu os ajudarei.  Existem muitas pessoas vitimas de policiais, o policial fardado é pior que um bandido.”

O 1º Sargento está preso no PB1 e ainda recebe seus honorários de Policial Militar. O próximo passo, para Rosa, é fazer com que ele seja exonerado: “Eu não vou desistir enquanto eu não conseguir isso”.