Livro digital trará experiências nacionais

Os grupos reflexivos são espaços educativos para homens autores de violência doméstica e estão previstos na Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). A atividade tem crescido ao longo dos últimos anos, tanto em órgãos da justiça quanto em organizações da sociedade civil. A Fundação Margarida Maria Alves vem realizando grupos deste tipo desde 2023, com o Projeto Repensar.

Foi pensando em publicizar sua experiência e também outras nacionais que surgiu a ideia de fazer um ebook sobre o tema. Para falar sobre a produção desse material e o seu andamento, entrevistamos Ivison Sheldon, pesquisador responsável pela produção do livro.

Ivison Sheldon

FMMA: Qual é o objetivo central da publicação e a quem ela pretende alcançar?

IVISON: O objetivo é compartilhar conhecimentos, experiências e práticas relacionadas aos grupos reflexivos voltados a homens autores de violência doméstica e familiar contra as mulheres. A proposta é contribuir para que essas experiências possam ser conhecidas, compreendidas e utilizadas como referência por profissionais e instituições que atuam no enfrentamento à violência contra as mulheres. A publicação pretende alcançar principalmente profissionais das áreas jurídica, social, psicológica e de políticas públicas, gestores e integrantes da rede de proteção e enfrentamento à violência, além de pesquisadores, estudantes e demais pessoas interessadas no tema.

FMMA: Qual é a principal contribuição que a publicação pretende oferecer para o debate sobre violência contra as mulheres?

IVISON: Acredito que uma das principais contribuições seja ampliar o debate para além da perspectiva exclusivamente punitiva. A responsabilização dos autores de violência é fundamental, mas o enfrentamento da violência doméstica também exige compreender os fatores que contribuem para sua reprodução e desenvolver estratégias capazes de promover reflexão e mudança de comportamento. Nesse sentido, os grupos reflexivos podem funcionar como uma ferramenta complementar às demais políticas de enfrentamento à violência, desde que sejam desenvolvidos com metodologia adequada, compromisso com os direitos das mulheres e perspectiva de responsabilização dos participantes.

FMMA: Que perguntas ou inquietações orientaram a pesquisa?

IVISON: Uma das principais inquietações foi compreender como diferentes instituições e profissionais têm desenvolvido os grupos reflexivos e quais experiências, metodologias e aprendizados podem ser extraídos dessas iniciativas. Também nos interessou compreender quais são as potencialidades e os limites desses grupos. Em outras palavras, não se trata de apresentar os grupos reflexivos como uma solução isolada para um problema complexo, mas de investigar em que condições eles podem efetivamente contribuir para o enfrentamento da violência doméstica e para a responsabilização e transformação dos homens autores de violência.

Homens participantes do primeiro grupo reflexivo da FMMA, em 2023

FMMA: Quais foram os desafios nesse processo?

IVISON: Um dos principais desafios foi justamente transformar experiências muito diversas, desenvolvidas em diferentes contextos institucionais, em um material que pudesse estabelecer pontos de aproximação sem apagar essas diferenças.

Outro desafio foi conciliar a necessidade de rigor na pesquisa com a construção de uma publicação acessível. O objetivo não é produzir apenas um material acadêmico, mas uma publicação que pudesse dialogar também com quem está na prática cotidiana das políticas públicas e dos serviços de atendimento. Além disso, pesquisar práticas relacionadas à violência contra as mulheres exige cuidado para não simplificar um fenômeno que possui dimensões sociais, culturais, jurídicas e psicológicas bastante complexas.

FMMA: Como você se relaciona com o tema do livro?

IVISON: Minha relação com o tema se dá tanto pela minha trajetória profissional e acadêmica na área dos direitos humanos quanto pela minha própria condição de homem. Pesquisar a violência contra as mulheres também me leva a questionar como o masculino é construído e como determinados padrões de comportamento, expectativas e formas de exercício do poder são produzidos e reproduzidos socialmente.

Isso significa reconhecer que os homens também precisam ser incluídos na reflexão sobre as estruturas e relações que sustentam a violência de gênero. Nesse sentido, os grupos reflexivos me interessam justamente porque podem constituir um espaço de responsabilização, mas também de questionamento sobre modelos de masculinidade e sobre a maneira como os homens aprendem a se relacionar consigo mesmos, com outros homens e com as mulheres.

Minha experiência profissional no campo dos direitos humanos e do sistema de justiça, somada à pesquisa desenvolvida no Projeto Repensar 2.0, tem me permitido olhar para essa questão de maneira mais crítica: não apenas perguntando como responsabilizar quem praticou a violência, mas também como podemos compreender e enfrentar as condições sociais e culturais que permitem que determinados padrões de violência continuem sendo reproduzidos.

FMMA: Como foi desenvolvido o processo de pesquisa? Quais fontes, experiências, critérios ou referências foram fundamentais?

IVISON: A pesquisa foi desenvolvida a partir do levantamento e da sistematização de experiências relacionadas aos grupos reflexivos, buscando identificar diferentes formas de organização, metodologias e perspectivas de atuação.

Foram fundamentais os relatos e conhecimentos acumulados por profissionais que atuam diretamente nessa área, bem como documentos institucionais, referências bibliográficas e experiências desenvolvidas no âmbito das políticas de enfrentamento à violência doméstica.

Um critério importante foi valorizar não apenas aquilo que está previsto formalmente nas políticas e normativas, mas também o conhecimento produzido na prática por profissionais que vivenciam cotidianamente esses serviços.

FMMA: Como é o trabalho de transformar experiências e conhecimentos acumulados sobre os grupos reflexivos em uma publicação acessível ao público?

IVISON: É um processo de seleção, organização e, principalmente, tradução. As experiências são muito ricas, mas nem sempre estão sistematizadas de uma forma que permita que outras pessoas tenham acesso a elas. O trabalho do pesquisador é, nesse sentido, organizar essas informações, identificar elementos comuns e diferenças, contextualizar as experiências e apresentá-las de maneira compreensível, sem retirar sua complexidade. Também existe uma preocupação em evitar que a publicação seja apenas um registro do que foi feito. A ideia é que ela possa provocar reflexão e, eventualmente, contribuir para que outras instituições pensem suas próprias práticas.

Entrevista on-line com Ana Beatriz, Agente de Direitos Humanos do Projeto Repensar, em 2023.

FMMA: O processo de produção do e-book tem lhe ensinado algo?

IVISON: Sim. Talvez um dos principais aprendizados tenha sido perceber ainda mais claramente a distância que muitas vezes existe entre aquilo que está formulado teoricamente e aquilo que acontece concretamente nas instituições.

O contato com diferentes experiências mostra que as políticas públicas não são executadas de maneira automática. Elas dependem das condições institucionais, dos profissionais envolvidos, dos recursos disponíveis e das características de cada território.

Também aprendi que sistematizar experiências é uma forma importante de produzir conhecimento. Muitas vezes existem práticas muito relevantes sendo desenvolvidas no cotidiano dos serviços, mas que permanecem pouco conhecidas justamente porque não foram registradas e compartilhadas.

FMMA: Se você tivesse que apresentar o e-book em poucas palavras, como o definiria?

IVISON: Eu definiria o e-book como uma publicação que busca dar visibilidade, organizar experiências e estimular reflexões sobre os grupos reflexivos como uma das ferramentas possíveis para o enfrentamento da violência doméstica e familiar contra as mulheres. Mais do que apresentar respostas definitivas, a publicação procura reunir experiências e conhecimentos capazes de alimentar o debate e contribuir para o aprimoramento das políticas e práticas de enfrentamento à violência.

O Projeto Repensar 2.0 é realizado com recursos do Fundo de Defesa dos Direitos Difusos do Estado da Paraíba, instituído pela Lei Estadual Nº 8.102, de 14 de novembro de 2006.