110 favelas estão prestes a explodir em João Pessoa

20.02.2006

Por: Juliana Brito

Especialistas em Defesa Civil alertam que as 110 favelas existentes em João Pessoa são uma espécie de “bomba-relógio” prestes a explodir. O estopim dessa realidade são as instalações elétricas precárias feitas pela população, bem como a má conservação de mangueiras e botijões de gás de cozinha, além da acomodação e utilização inadequadas destes equipamentos. Em grande parte dos casos, o problema ocorre por falta de informação, ou ainda, por conta da escassez de recursos, que acaba resultando em uma única opção: o improviso. O alerta é da Associação Anjos do Asfalto, organização não-governamental especializada em socorro a vítimas de acidentes e outras emergências.

Por conta disso, a dificuldade acaba “obrigando” os moradores dessas comunidades a emendar fios com pedaços de plástico (em vez de fita isolante), ou ainda, manterem um botijão de gás ao lado da cama do único cômodo existente na casa. “Basta um curto-circuito que tudo vai embora, destrói tudo mesmo. Não queremos assustar, e sim conscientizar, pois tem como reduzir a vulnerabilidade e os riscos, através de um trabalho educativo”, afirmou o presidente da associação Anjos do Asfalto, Almiro Coronel.

Entre os 266 componentes dos Anjos do Asfalto da Paraíba, 36 são especializados em defesa civil. Por conta disso, a equipe realiza visitas a comunidades carentes, com o intuito de verificar as condições de segurança e acomodação de moradores. O grupo também oferece cursos de primeiros socorros e prevenção a incêndio. “Percebemos que os moradores dessas comunidades já estão acostumados com aquilo, pois nasceram e foram criados ali, naquelas condições. É preciso criar algo que ajude essas pessoas”, disse. Uma das maiores preocupações, segundo Almiro Coronel, é a ausência de separação entre os cômodos das casas. “Em caso de vazamento de gás, além do perigo de explosão, pode haver contaminação crônica de todos os moradores da família, que vão inalar aquela substância, correndo sérios riscos de dano à saúde”, afirmou o presidente da ONG, que também é engenheiro e membro do sindicato da categoria (Senge-PB). Outro alerta do especialista diz respeito ao difícil acesso de macas, cadeiras de rodas, ambulâncias e, principalmente, de viaturas do Corpo de Bombeiros, em caso de resgate de emergência ou incêndio.

O chefe do Centro de Atividades Técnicas (CAT), do Corpo de Bombeiros, major Denis Nery, revelou que a corporação está realizando um estudo interno sobre as comunidades carentes da capital, desde o final do mês passado. A partir da conclusão desse levantamento, ressaltou, os Bombeiros irão visitar estes locais, fazendo um trabalho de conscientização de moradores, através de oficinas sobre manuseio e instalação de botijões de gás cozinha, bem como prevenção a incêndios.

O chefe do CAT destaca que, na maioria das comunidades carentes, a estrutura das casas – geralmente composta por materiais inflamáveis (papelão, lona e madeira) – ajuda a propagar o fogo, em caso de incêndio, com maior rapidez. Nas localidades de difícil acesso, em caso de emergência, os Bombeiros podem optar pela conexão de mangueiras, para levar água da viatura (que tem capacidade para 6 mil litros) até o local desejado. As opções variam de acordo com a localização. Dependendo da situação, informou o major, a equipe de Resgate pode recorrer a cadeiras comuns e outros tipos de objetos (sempre associados a equipamentos de segurança, como colete cervical), capazes de viabilizar o transporte das vítimas para a unidade de socorro.

53% da população de João Pessoa mora em comunidades carentes

Um dado curioso é que, dos cerca de 650 mil habitantes de João Pessoa, 53% vivem em comunidades carentes (favelas), segundo informações do diretor de Habitação Social da Prefeitura Municipal, José Calistrato. “Tem mais gente nas comunidades (aproximadamente 350 mil pessoas) do que nos outros bairros de João Pessoa. Metade da cidade está praticamente escondida nesses locais”, afirmou Calistrato.

No bairro São José, maior comunidade da cidade, com duas mil casas e cerca de 10 mil moradores, existem duas ruas de acesso para veículos, sendo uma asfaltada. Uma equipe dos Anjos do Asfalto visitou o local na semana passada, para vistoria e orientação de moradores. A reportagem do JORNAL DA PARAÍBA acompanhou a visita. A técnica em defesa civil Suênia de Almeida observa que, no que se refere a instalações elétricas, as residências localizadas nas vias principais estão dentro do padrão.

Já as casas menores, construídas nas proximidades do rio Jaguaribe, encontram-se em situação delicada. “Existe muita instalação clandestina (“gato” de energia). Se a pessoa tomar um choque, não tem como desligar a chave geral, pois a ligação é direta”, alertou Suênia. A dona-de-casa Ana Cristina dos Santos, de 22 anos, mora em uma casa de três cômodos com o marido e três filhos.

O fogão da casa foi comprado há mais de cinco anos, sendo que, a mangueira de gás (que passa por trás do forno) nunca foi substituída. Além disso, as instalações elétricas da casa são improvisadas, compostas por fios encapados com pedaços de plástico e extensões de energia quase que artesanais. “Eu não tenho condições de trocar mangueira de fogão, nem de pagar uma pessoa para consertar os fios”, contou Ana Cristina, enquanto lavava a roupa da família.

A jovem afirmou desconhecer os riscos que um vazamento de gás pode oferecer. “Eu fumo dentro de casa, não sabia que tem perigo de pegar fogo”, disse. Após visitar diversas casas em situação precária, a equipe fez um “achado” impressionante. O botijão de gás da casa da estudante Rosana Silva de Oliveira, 17 anos, estava “deitado” ao lado da cama em que a jovem dorme com outros quatro irmãos.

Os técnicos em defesa civil dos Anjos do Asfalto ressaltam que, o mais grave é que, na tentativa de economizar – com o aproveitamento máximo do gás do botijão – criou-se uma situação ainda mais perigosa, uma vez que o fogão encontra-se em condições delicadas de conservação. “O gás está perto de acabar. Por isso, minha mãe colocou ele deitado perto da cama. Não sabia que é perigoso, nem que tem que trocar a mangueira e as válvulas do botijão”, comenta Rosana, que cuida da casa enquanto a mãe trabalha como doméstica.

Favela de papelão e tecido; postes são de madeira

Ao passar pela comunidade Jorge Luiz, no Valentina de Figueiredo, na capital. fica difícil acreditar que as 200 moradias existentes são “de verdade”. Segundo relato dos moradores, nos últimos quatro anos, dois casos de incêndio foram registrados naquela localidade. Na moradia de número 163, Valdeci Batista, 29 anos, vive com o marido e dois filhos pequenos (uma menina de dois anos e um menino de oito meses).

A dona da casa conta que, há cerca de um ano, um curto-circuito provocou um incêndio dentro de casa. “A gente puxava energia do fio de telefone. Só não pegou fogo em tudo aqui, naquele dia, porque os vizinhos correram para ajudar”, conta Valdeci, que tem aparelho de som, televisão, fogão e um velho ventilador, como únicos objetos “de valor”. Ela utiliza o fogão a gás – cuja mangueira plástica do botijão perdeu a validade em 2002 – para cozinhar as refeições da família. “Não sabia que tem que trocar essa mangueira”, diz a jovem.

Naquela comunidade, as minúsculas casas são construídas, de maneira improvisada, com pedaços de madeira, restos de tecido, papelão e plástico. A energia elétrica é “puxada”, dos postes da rua, para dentro das casas, de forma clandestina. Postes de madeira, confeccionados pelos próprios moradores são responsáveis pela sustentação dos fios, que se enroscam por entre as “vigas” do teto, encapados com pedaços de saco plástico e remendados com fita adesiva. Na tentativa de proteger as lâmpadas da chuva, garrafas de plástico (tipo pet) cortadas, são utilizadas como bocais de luz. A eletricidade “convive” de perto com os lençóis velhos e sujos que funcionam como parede, ou uma simples tentativa de dividir o reduzido espaço em pequenos cômodos. O telhado é uma mistura de lona, plástico e restos de estopa, com algumas telhas remanescentes.

Bem perto da casa de Valdeci, a dona-de-casa Maria de Fátima do Nascimento, 33 anos, vive com o marido Elpídio Gonçalves, 27, e dois filhos. Como não possui fogão a gás, ela cozinha as refeições da família em um pequeno fogareiro a lenha – feito por Elpídio, com uma grelha sobre alguns tijolos – do lado de fora da casa. Já o seu marido afirma ter sido o responsável por toda a instalação elétrica da residência. “Aprendi com o meu pai”, comentou Gonçalves. A também dona-de-casa Iolanda da Silva, 31 anos, mora em um espaço de, aproximadamente, quatro metros quadrados, com o marido e seis filhos.

Ela tem um fogão de quatro bocas, que fica localizado bem próximo à “parede” lateral da casa, feita de papelão. “Moro aqui há três anos. Sempre tive cuidado com o fogo quando estou cozinhando. Uma vez, meu filho de dois anos pegou um papel e correu para perto do fogão, mas eu cheguei antes que acontecesse alguma coisa”, contou Iolanda. O diretor de Habitação Social da Prefeitura, José Calistrato alerta: “Esta comunidade é a que corre maior risco. Até com o vento é possível acontecer um incêndio por lá”.